quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Vinho Verde, 1876


Político, diplomata e académico no fim do século XIX, António Augusto de Aguiar dedicou bastante do seu trabalho aos vinhos e à melhoria da sua qualidade tendo em vista a exportação.

Um produtor de Vinho Verde, amigo, fez-me chegar este texto delicioso, retirado de uma conferência que AAA fez em Lisboa no ano de 1876.

"Afirmam no Porto, que não se póde beber esta peste senão de olho esquerdo fechado, pondo a boca á banda, e alçando a perna direita, como quem ao bebel-o espere os effeitos de uma pedrada.

Obriga a grande careta, em resumo, capaz de metter medo às creanças, e de fazer exclamar as amas: olha o papão, vae-te embora! E no entanto é o mais virtuoso dos vinhos, por ser o que não embriaga com tanta facilidade. Só por isso gosto d’elle. Sabe respeitar a intelligencia.

Em Londres, ao principio, tomavam o vinho verde por uma substancia purgativa, e sobretudo não podiam comprehender como se chamava verde e era roxo!

Não agradou as inglezes e n’isto está dito tudo. E todavia eu tenho predilecção pelo vinho verde. Sem que sejamos da mesma terra, acho este vinho refrigerante, ligando-se optimamente com agua quando é bom. Parece-me mais agradavel que a perdiz faisandée gabada pelo gastronomo. Menos enjoativo que o caviar dos russos, facil de confundir com o oleo de figado de bacalhau, a quem não esteja costumado a comel-o.

É menos repugnante sem duvida, que o Brie mais fino de França, cujo aroma a toda a gente repugna, quando se não exhala do queijo. Não tem bichos, nem está podre. Arranha um pouco as goellas. Sobretudo é difficil aprecial-o á primeira vez; mas outro tanto acontece com as ostras cruas e a musica de Wagner.


Para saber mais sobre o autor, consulte o documento que encontra aqui.

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