terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Vinho de mesa com indicação de casta/ano de colheita

Encontra-se em fase avançada a regulamentação para este tipo de vinhos, pelo que já podemos ter como certas algumas ideias.

De que se trata ? para quando ?
Até hoje, a indicação da casta ou do ano de colheita na rotulagem era exclusiva dos DOC's ou IG's. A partir da campanha 2009/2010, será possível rotular vinhos de mesa com estas duas indicações. E, porque se trata de vinhos de mesa, podem naturalmente ser lotados de vários pontos do país. Por exemlo pode fazer-se um lote com touriga nacional de vários pontos e vende-lo como "Marca X, touriga Nacional 2008". Não pode apenas é haver lote com vinhos de fora do país ou da UE.

Porque é que isto aparece ?
Tradicionalmente na UE entendia-se que a indicação de casta/ano esta exclusiva de vinhos de "topo" com DOC ou IG e sujeitos a um processo de controlo prévio. Porém, no novo mundo nada disto sucede, pelo que se abriu às empresas europeias o acesso às mesmas ferramentas de concorrência.

É pois, no meu entender uma boa noticia, uma excelente notícia.

Surgem-me porém duas preocupações muito grandes:
  • uma principal - que o uso das indicações de casta seja feito com rigor, com verdade;
  • uma complementar - que os mecanismos de controle não se transformem num pesadelo de custos e demoras.
Quanto à primeira, é evidente o valor comercial de algumas castas, Alvarinho, Touriga Nacional. Ora, importa evitar que haja abusos e que com isso se "queime" a designação de alguma casta. E o leitor duvida que, se não houver controle, começará a haver "Alvarinho" e "Touriga" a 95 centimos ?! A meu ver o sistema de controle tem de passar por dois pontos: tem de ser feito por entidades competentes e credíveis e tem de assegurar a rastreabilidade. Quais são estas entidades ? simples, são as CVR's+IVDP reconhecidas nos termos da lei quadro das regiões demarcadas ( DL 212/2004 de 17/08 ) e que cumpram os requisitos na norma 45011. Estas e nenhuma outra. Recuso fortemente que se artibua o controle destes vinhos a empresas de vão de escada. No segundo ponto, eu pessoalmente não entendo ser essencial que haja uma análise fisico-quimica/organopeltica destes vinhos ( há regiões que acham ) mas é imperativo que se assegure a rastreabilidade através da análise das contas correntes e dos DA's que as alimentaram. E mais, é necessário criar um sistema que evite que uma empresa venda mais vinho do que aquele que comprou daquela casta. Pode ser um selo, mas não é necessário, desde que a entidade de controlo tenha acesso à facturação.

Quanto à segunda, parece-me imperativo que haja um pequeno manual de procedimentos a seguir por todas as entidades encarregadas e controlar estes vinhos e que haja um valor fixo da taxa a ser praticado em todo o país.

A propósito destes vinhos, e para terminar , invoco dois exemplos que aqui são úteis:

  • o primeiro é o dos "Garrafeiras" Dão na Dinamarca. O abuso da designação garrafeira levou a que esta designação efectivamente perdesse valor e arrastasse toda a categoria consigo;
  • o segundo é o da crise financeira nacional e mundial;
  • o terceiro é a forma como são atribuídos os "Certificados de Origem" pelas Câmaras de Comércio. ( sobre isto nem comento porque estamos na internet ! )

Uso os exemplos para sublinhar isto. "Mercado" não é a ausência de leis. A sã concorrência, que torna os mercados fortes não se dá num ambiente de balda. Pelo contrário, ela floresce num ambiente de liberdade em que há regras claras e em que há "surpervisão" destas regras e sanções para quem as viola. Liberdade é uma coisa e caos é outra. Rejeito frontalmente o argumento de que se deve deixar tudo a monte porque o "mercado mais tarde saberá seleccionar". No caso dos "Garrafeiras" viu-se; no caso do sub-prime viu-se à saciedade !

Os vinhos de mesa com indicação de ano de colheita e casta são uma oportunidade fantástica e terão sucesso, assim saibamos equilibrar a necessidade e controle com a preocupação na simplicidade de procedimentos. Ambas legítimas.

A batata quente está do lado do IVV.

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