quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Da Quimonda ao Vinho Verde

A queda da Quimonda, o maior/segundo maior exportador nacional todos os dias nos jornais, vem por em causa mais um "modelo de sucesso". Disseram-nos nos últimos anos que o rumo certo era ter um Portugal estilo Finlândia, com empresas de alta tecnologia e quadros altamente qualificados. Isto, em vez de apostar na mão de obra barata e nos sectores tradicionais. É a política "magalhães", o pequeno computador que ficará na história como o marco de uma época e um logro de política no qual todo o país caiu ( talvez não tão anedótico como os telemóveis que o Ministro Fernando Gomes tinha dado aos pastores para combater os fogos ... ).

A Quimonda é precisamente isto. Uma empresa de alta tecnologia, em que os 1700 funcionários são na sua maioria quadros técnicos com formação de excelência.

E porém atravessa a situação que todos vemos. E não é sequer a típica doença da deslocalização que afecta o investimento estrangeiro, como sucedeu com a Opel na Azambuja. É o encerramento de uma empresa de alta tecnologia. Ponto.

Não tenho dúvida de que o nosso sector também vai atravessar um período extremamente difícil. E a nossa região não escapará. E porém tenho muita confiança na nossa capacidade para suportar estes tempos difíceis e sair deles uma região mais competitiva. Aqui vão alguns.

Temos um produto muito diferenciado. Manter a diferenciação do Vinho Verde é essencial. Quando mais genéricos são os produtos, mais importante é o preço. Na enologia devemos saber fazer vinhos com personalidade própria mas que não sejam agressivos ao cliente. Na comunicação, continuar a dizer ao cliente que este vinho é diferente dos outros. Não há mal nenhum que o consumidor Português organize mentalmente o vinho separando os Verdes dos outros. Há dias num restaurante, ouvi numa mesa ao lado alguém que escolhia o vinho e se dirigia aos convivas "Verde ou tinto?". Dois pediram Verde. E continuou ele, dirigindo-se aos outros "Douro ou Alentejo?".

Temos um produto competitivo. As nossas queixas ( justas ) de que o Verde nunca se consegue vender caro vão-se virar agora a nosso favor. Temos e encontrar o equilíbrio certo no preço e é um erro competir com os vinhos de mesa em baixo preço, baixando a qualidade e deixando de remunerar o agricultor. Na CVRVV estamos a fiscalizar todos os vinhos abaixo de 1,20 euros por garrafa. E porém, nesta época em que o cliente é muito mais sensível ao preço, estamos claramente bem posicionados. Uma palavra de preocupação aqui quanto às médias empresas/cooperativas da região, que precisam rapidamente de se aproximar ou e encontrar formas eficazes de reduzir/partilhar custos;

Temos um produto do nosso tempo. Todos os estudos que fazemos mostram quanto Vinho Verde é um vinho do nosso tempo. Com menos álcool, mais leve, menos calórico, mais fresco, mais jovem, festejando a vida e a garra com que a vivemos. É esta a mensagem que temos de passar ao cliente. Em tempo de crise, de desânimo, há um vinho que tem os olhos a brilhar e um sorriso aberto.

Temos uma marca forte. Fechamos 2008 com 18,5% de quota de mercado em Portugal, a maior de sempre e com exportações acima dos 11 milhões de litros, também as maiores das últimas décadas. O Vinho Verde é, destacadamente o segundo vinho Português com maior implantação nacional ( atrás do Alentejo ) e mundial ( atrás do Vinho do Porto ). Não começamos pois do zero, temos uma boa distribuição e uma excelente presença nas prateleiras.

Temos mais marcas fortes. Tal como nos combóios, também nós temos locomotivas que puxam pela região: Casal Garcia, Gazela, Muralhas de Monção são apenas alguns exemplos. No estudo que a Viniportugal fez do mercado nacional, estas três marcas aparecem consistentemente na memória do consumidor. É curioso como alguns jornalistas dedicam anos de trabalho a falar de marcas que depois nenhum consumidor recorda. "Fazer marca" é essencial. E repare que estas três marcas seguiram caminhos diferentes: o Casal Garcia com décadas de investimento e trabalho árduo na vinha e no vinho proveniente de uma Casa que investe a fundo na nossa região, o Gazela com uma vontade e uma capacidade de investimento indomáveis, ancorado numa estrutura extremamente profissional em que tudo é calculado ao milímetro, e o Muralhas, a prova cabal de que uma cooperativa pode construir uma marca assente num produto de qualidade, com trabalho consistente e com pouquíssimo investimento de publicidade.

Se costuma ler esta página regularmente, prepare-se já pois os números de vendas de Janeiro serão cinzentos. Muito. E porém é nestes momentos que as marcas, as empresas e o países têm de lutar e não podem baixar os braços de modo nenhum. Saibamos dar o nosso melhor e não tenho dúvida nenhuma de que o Vinho Verde nos ajudará !

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