domingo, 14 de junho de 2009

Eleições na Viniportugal ( act. às 15:20 )

O artigo, duríssimo, no Diário Económico de do passado dia 1 veio trazer a público a guerra surda que tem minado a Viniportugal nos últimos meses e mais vivamente nas últimas semanas.

O mandato dos órgãos sociais está a terminar e o presidente cessante, Vasco d'Avillez, vem à imprensa dizer que a sua saída é imposta pela CAP pelo facto de ele, Vasco, e a Viniportugal terem um bom relacionamento com o Ministro da Agricultura.

A Viniportugal, e o seu bom funcionamento são muito importantes para a nossa região. Dispondo de um orçamento anual superior a 7M€ para os próximos anos e tendo em conta que os meios do AICEP estão reduzidos a zero, percebe-se que a Viniportugal será nos próximos anos a única instituição a promover os vinhos portugueses pelo mundo.

Vale pois a pena reflectir um pouco. ( desculpe, leitor, a extensão do texto mas o assunto não é leve )

A mudança nos órgãos sociais de uma associação é um processo natural. Tão natural é hoje substituir o Vasco d'Avillez como foi no passado a substituição do presidente fundador João Renano Henriques. Ambos deixam obra e a ambos o sector não pode senão ficar grato.

Em nome do que entendia serem os interesses legítimos da nossa região, entrei várias vezes em conflito com a actual direcção. Não o fiz na praça pública por entender que não era no interesse da região nem da Viniportugal. Mas fi-lo sempre por escrito.

A nossa região é o maior exportador no âmbito da Viniportugal e sempre entendi que o tratamento que nos era dado, bem como às nossas marcas está muitíssimo aquém do que é justificado. Entendo que a nossa região pode - e deve - ter outro tipo de tratamento no que diz respeito às visitas a Portugal de jornalistas. Entendo que a Viniportugal deve promover activamente Portugal também como um produtor de vinhos brancos. E já tentei explicar várias vezes que a nossa denominação de origem se designa por "Vinho Verde" e é assim que a região deve ser catalogada nos livros e folhetos que a Viniportugal edita com o nosso financiamento. Vinho Verde e não Minho.

Encaro pois com expectativa a renovação dos órgãos sociais da Viniportugal. E informo pela enésima vez que não sou candidato a coisa alguma.

Antes de falar das pessoas, duas questões: que modelo de governação deve ter a Viniportugal e que perfil devem ter os directores ?

Quanto ao modelo de governação, não devemos seguir a "mania" portuguesa de estar sempre a mudar tudo. Podemos porém fazer pequenas correcções ao actual. Assim:

- deve ser contratado rapidamente um director geral que substituirá a Dra. Dora Simões, saída para a CVR Alentejo há já tempo demais e que a anterior direcção nunca substituiu. O Director Geral deve ser o profissional de topo da casa, executivo a tempo inteiro e deve ser ele/ela que gere directamente as acções de promoção, formação e tudo o que de executivo se extrai do plano de actividades da Viniportugal. Responde à direcção, mas não deve estar ausente das assembleias gerais.
- a direcção deve ter dois vogais não executivos. O presidente, podendo ser executivo, distingue-se do director geral. Não lhe cabem tarefas executivas como montar as feiras e acompanhar jornalistas ou importadores. Deve encarregar-se da gestão de topo, sua avaliação, do relacionamento societário, da representação, da captação de investimentos, do lóbi.
- uma terceira observação quanto ao modelo de governação. A matriz de gestão da Viniportugal foi sempre a de uma instituição com uma estrutura muito ligeira, contratando serviços fora quando necessário. Deve ser assim. Importa recordar que esta associação vive de fundos aos quais se candidata. São por natureza financiamentos temporários, pelo que não faz sentido criar estruturas fixas para financiamentos que não o são.

Quanto ao perfil que devem ter os directores, algumas ideias:

- devem ser fortemente representativos do sector. É importante que a Direcção ( é sobretudo deste órgão que se trata ) possa ser eleita com uma larguíssima maioria ou até por unanimidade. Para ser assim, cada sector da assembleia deve sentir-se representado na direcção: as cooperativas, as pequenas empresas, os grandes exportadores, as regiões tradicionais, as novas regiões, todos estes devem sentir que a Direcção de algum modo os representa.
- devem ter uma cultura de sector. Os directores da Viniportugal repreentam-nos a todos e não a si próprios. Devemos pois encontrar colegas que tenham esta visão e esta sensibilidade global. Preocupa-me muito a tentação de se eleger quem só represente interesses individuais e esquece a constante procura do "máximo denominador comum" que deve nortear o trabalho de um dirigente associativo na Viniportugal;
- devem ter experiência e conhecimento de base na área de marketing de vinhos e em particular na exportação;
- devem ser pessoas com capacidade para mobilizar o sector em seu redor e face ao rumo que a Viniportugal quer dar às nossas exportações. Importa perceber que a Viniportugal não é um prestador de serviços mais ou menos anódino. É suposto que ela chame o sector, o mobilize, lhe dê rumo e energia para aumentar e valorizar a presença de Portugal no mundo.
- devem ser capazes de estabelecer e solidificar uma boa articulação com o Vinho do Porto, algo que nunca sucedeu com a eficácia que todos desejamos e que deve ser uma das linhas estratégicas da Viniportugal.

E posto isto chegamos às eleições que estão marcadas para o próximo dia 16. A CVRVV não vota directamente. Está representada pela ANDOVI, a associação que agrupa as CVR's, o IVDP e o IVBAM.

Como preparação da assembleia, a Presidente da ANDOVI recebeu, e comunicou aos associados, uma proposta de lista que lhe foi apresentada pela CAP e que será formalmente apresentada a votos na terça feira. A sua composição:


Presidente da Direcção – Francisco Borba
Vice-Presidente pelo Comércio – Jorge Paiva Raposo
Vice-Presidente pela Produção – Luís Pato
Presidente do Conselho Fiscal – Jorge Basto Gonçalves
Vogal do Conselho Fiscal – Leandro Antunes
Presidente da Assembleia Geral – João Carvalho Ghira (ANDOVI)

A ANDOVI reuniu no passado dia 9 para preparar as eleições da Viniportugal e emitiu por unanimidade um documento ( cópia disponível ) do qual retiro alguns pontos:
- a ANDOVI não se revê no processo de elaboração desta lista sem obedecer a uma consulta na sua fase de constituição, sendo de recordar que a ANDOVI propôs inicialmente vários nomes para esta lista, que aparentemente não geraram nenhum apoio, após o que foi informada da constituição da actual lista;
- é contestada a ausência de um programa que suporte a lista.
- a ANDOVI reclama que as regiões demarcadas tenham maior peso no processo de decisão da Viniportugal, seja quanto às suas actividades, seja mesmo a nível estatutário.

Para que se perceba porque é que a ANDOVI e as regiões demarcadas EXIGEM tem um papel determinante na Viniportugal, ilustro com um exemplo que se passou na semana passada. A Viniportugal está ( e bem ) a elaborar páginas internet para promover os vinhos portugueses nos EUA e no Canadá. A página falará do país vinícola e terá uma lista dos vinhos disponíveis naqueles mercados e respectivos pontos de venda. Ora... esqueceram-se de incluir a informação da REGIÃO de que cada vinho provém. Não está lá, simplesmente, foi omitida. Um Vinho Verde, um Dão e um Porto aparecerão lado a lado se a ordem alfabética assim o proporcionar. Assim, o Gazela aparecerá ao lado do Gouvias, o Muralhas ao lado do Monte Velho e o Cruzeiro Lima ao lado do Cruz ( Porto ). Eina ...

Este é só o exemplo mais recente. Recordo o livro editado pela Viniportugal em que a nossa região aparecia no capítulo "Minho", o Douro no capítulo "Trás os Montes" e por aí fora...

É essencial pois que as denominações de origem tenham uma palavra forte na Viniportugal. E hoje não têm: a ANDOVI apresenta-se no dia 16 com 2 votos num universo de 24.

Não tendo sido consultada sobre a elaboração da lista e não lhe conhecendo nenhum programa, não deverá pois surpreender que a ANDOVI se abstenha na votação. Aliás na votação interna, só um colega anunciou votar favoravelmente e um outro escreveu “não se opor”.

A posição da CVRVV, aliás em paralelo com os colegas do Dão e do Douro, foi a indicada no texto da ANDOVI, pelo que só poderíamos votar contra ou em abstenção, pela qual finalmente optamos.

Sem entrar numa análise da lista, pergunto-me como é que a Direcção da Viniportugal pode ser constituída sem ninguém que tenha sensibilidade às regiões tradicionais, Dão, Douro e Verdes?!

E será que a lista candidata corresponde ainda que minimamente, ao perfil indicado acima ?

Mais, num momento em que se prepara um acto eleitoral do Estado Português e em que o Ministro e a CAP estão em conflito aberto ( com esta a exigir a demissão daquele ) não seria prioritário escolher um elenco que fosse totalmente isento a uma coisa e outra ? A nossa política é a do vinho, no meu caso particular a do Vinho Verde, e é um erro crasso deixar que instituições como esta sejam transformadas em “castelos” degladiadas por forças que nos são externas.

Pois bem, concluindo e usando aquela liberdade que nos foi conferida pelo Capitão Salgueiro Maia: não me parece que a Viniportugal vá no bom caminho, embora ainda a tempo para haver alguma prudência e procurar algum diálogo que seja capaz de reforçar a associação e unir o sector.

NOTA ( actualizado às 15:20 ): não menosprezo de modo algum a presença do Presidente da FENADEGAS, membro do nosso Conselho Geral como Presidente do Conselho Fiscal da lista candidata. É algo de muito positivo.O meu comentário refere-se, como escrevo sempre, quanto à composição da Direcção.

2 comentários:

Anónimo disse...

Olá,
O artigo é bom, mas carece de objectividade. Usando da mesma liberdade que evoca (e pensando numa viúva a receber uma condecoração póstuma da mão de um antigo Primeiro-ministro que recusou atribuir ao seu marido uma pensão por "serviços excepcionais e relevantes" e, na mesma altura, a concedeu a dois antigos inspectores da PIDE) pergunto-lhe: acha mesmo relevante uma associação como a ViniPortugal? E Vasco d'Avillez? Prestou um bom serviço aos vinhos nacionais?
Ter um blog tem destas coisas…
Cumprimentos,
Um leitor

Manuel Pinheiro disse...

Olá anónima/o.

Obrigado pelo comentário. O artigo não é objectivo de facto, mas também não o pretendia ser: é a minha opinião.

Gostei da referência à condecoração. Será que ela a deveria ter recusado ? O Salgueiro Maia foi o homem que FEZ e não exigiu nada para si. Exactamente o contrário do nosso tempo.

Acho muito relevante a Viniportugal e muito positivo o modelo de financiamento e gestão pelo sector. Basta comparar com o modelo anterior ( ICEP ) para lhe ver as vantagens. O facto de alguns actos de gestão serem menos felizes não põe em causa o modelo.

O Vasco d'Avillez é uma pessoa séria, leal ao vinho. Foi imponderado em várias decisões no último mandato.

Obrigado pelo comentário e, se ficar mais confortável com isso, pode ser anónimo, pode ...