quarta-feira, 21 de abril de 2010

Para onde vai o mercado nacional de vinhos

Este texto é uma reflexão pessoal. Arriscada talvez, mas certamente sincera.

Baseado nos dados de que dispomos, é minha convicção que o mercado nacional de vinhos apresentará crescente dificuldade nos próximos anos. Passo a explicar.

O CONSUMO PER CAPITA. Portugal sempre teve um dos maiores consumos per capita do mundo. Este tem porém descido, de forma lenta mas muito consistente. Esqueça as promessas demagógicas: esta descida é irreversível. Sucede por vários factores, de que cito um: a mudança geracional - os pais que bebiam vinho em todas as refeições estão a ser substituídos pelos sucessores, que só bebem em algumas refeições, geralmente ao fim de semana. O vinho deixou de ser "a" bebida para matar a sede. Os dados Nielsen de "quota de barriga" revelam que esta era em 2009 de 6,7% para os vinhos, contra 40,4% para as cervejas e para as águas engarrafadas 27,8%. O vinho tinha mais de 8% há dez anos e perdeu em todos os anos do período. A água engarrafada é o produto que mais cresce.

QUANTOS SOMOS. A população do país não cresce há vários anos. Aliás decresce a população "originária" portuguesa e só a entrada de imigrantes nos tem mantido acima do redondo número de 10 milhões. A população não cresce e nada indica que venha a crescer. A taxa de natalidade está a baixar e não há sinal de inversão. Por outro lado, as comunidades de imigrantes que passam a residir no nosso país vêm sobretudo de países em que o vinho não é de consumo tradicional: não são os emigrantes de leste, os brasileiros e os africanos que vão suster o nosso consumo de vinho.

O NOSSO BOLSO. O Banco de Portugal prevê um crescimento do PIB em 0,4% este ano e 0,8% no próximo. A necessidade de repor as finanças públicas em ordem fará com que o país mantenha taxas de crescimento baixas durante longos anos. O desemprego não se reduzirá tão cedo. Vamos esperar uma década até que os portugueses voltem a ver o sorriso da prosperidade.

OS NOVOS VINHOS. A crescente liberalização dos mercados faz com que ao nosso consumidor sejam oferecidos vinhos com boa apresentação, bem feitos e muito baratos. Já está a suceder aliás. Hoje em dia ( novamente fonte Nielsen ) é o segmento dos 0 aos 2,5€ / garrafa que mais cresce no nosso mercado. Esta dureza de concorrência irá privilegiar economias de escala, sobre valor acrescentado.

A CONCENTRAÇÃO. A distribuição Portuguesa é muito concentrada e a crise veio aumentar este efeito. Está a aumentar o consumo em casa, face ao horeca e está a aumentar a quota da grande distribuição, face aos estabelecimentos tradiconais. Sendo certo que mais de 70% dos vinhos vendidos em portugal passam por uma grande superfície ( inc cash ), então aqui temos um funil quanto ao número de marcas que são admitidas no linear ( e temos nós 2000 marcas de V verde registadas... ) e também um reforço do peso das marcas próprias.

Se leu até aqui sem se atirar da ponte abaixo, pode agora relaxar.

Não hesito em afirmar que nos próximos dez anos "crescer" é um objectivo que só se pode realizar na exportação. Crescer em Portugal será caríssimo. Significa financiar o crescimento com preços muito baixos ou com campanhas de marketing intensas. O mercado não crescerá por si, pelo que vender mais significa inevitavelmente conquistar quota a um concorrente. Não interprete que eu "desisto" do mercado nacional; porém parece-me disparatado esperar por uma próxima retoma que certamente nao virá com força significativa tão cedo.

Ora a exportação quer Vinho Verde. Veja os gráficos que coloquei em textos anteriores: estamos há dez anos a aumentar a exportação todos os anos e com preços médios estáveis. A nossa região depende ainda muito do mercado nacional, perto dos 80%, pelo que ainda temos aprovisionamento para dar resposta à procura externa. Acresce a isto a renovação de vinha: a nossa qualidade média tem melhorado muito e assim continuará.

Não hesito nada em afirmar que somos uma região de sucesso e sobretudo com um potencial enorme para o transformar em riqueza. Assim, o saibamos fazer.

1 comentário:

José Novais Miranda disse...

Concordo plenamente com tudo o que escreveu. Diria mesmo, que os nossos empresários (principalmente os que possuem escala) deverão perceber os tempos difíceis que nos esperam caso não encarem a exportação como um mercado capital.
Entre todas as causas apontadas para este abrandamento no consumo interno de Vinho Verde estará, sob o meu ponto de vista, como causa primeira a crise profunda e sem precedentes que o país está mergulhado e que afecta a escolha (valor) e até a própria compra (quantidade) de bens de consumo. Para fazer face à solicitação do mercado vários Agentes Económicos da nossa Região enveredaram por engarrafar vinhos de outras proveniências, com matérias-primas mais baratas, mas de proveniência dúbia. Escolheram o caminho mais fácil para fazer face aos seus custos estruturais, mas irão comprometer o sucesso da viticultura da nossa Região.
As estatísticas da CVRVV indicam uma grande quebra de vendas em volume no mercado interno, imaginando-se qual será a quebra em valor. Por esta razão é necessário produzir vinhos com uma boa relação preço/qualidade. Será necessária a concentração definitiva das nossas Empresas, sem bairrismos ou caprichos pessoais, para atingirmos as indispensáveis economias de escala. Produzir bons vinhos não chega, é necessário que sejam competitivos no preço, principalmente para quando surge um período de retracção.
Por outro lado, verifica-se um maior volume na exportação dos Vinhos Verdes (bem haja!), aspecto a tomar em consideração e que denota a concorrência desenfreada que o mercado nacional mergulhou. Com o consumo em queda, pode dizer-se mesmo que para vendermos mais uma garrafa de vinho, alguém ficará sem vender. Mais uma vez o factor preço é determinante e as margens ficam comprometidas.
Por isso, concordo que apenas nos resta o mercado externo, principalmente os receptivos ao Vinho Verde, com consumos per capita baixos e naturalmente com grande potencial para um consumo crescente. Dir-se-á que é difícil e caro vender no mercado externo, mas quanto custa vender no mercado interno abaixo do preço de custo?
José Novais Miranda