quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Vinhos, carros e medalhas

Quanto eu era novo ( eu sei já foi no outro século... ), havia um carrinho que era o Renault 5 GTL. Era um pequeno carro urbano, muito económico, oferecia uma otima relação qualidade/preço, era feito cá e foi um sucesso de vendas.


Por ser económico e de perfil urbano, era necessáriamente pouco espaçoso e pouco potente. Porém era designado como "GTL", as abreviaturas de Grande Turismo Luxo. Na verdade não era nada disto. Estas designações começaram a ser usadas no início do século em carros que de facto as justificavam mas foram sendo cada vez mais desvalorizadas pelo seu uso indiscriminado. Quando chegaram ao R5 dos anos 70/80, GTL já não significava nada, não tinham nenhum valor de mercado. Hoje cairam em desuso e as marcas optaram aliás por uma estratégia mais inteligente: registam em seu nome a totalidade da designação de cada modelo e assim protegem a sua pripriedade intelectual. Não espere entrar num stand e encontrar no futuro nenhum modelo "GTL".

Vem esta lenga lenga a propósito das medalhas que encontramos nas garrafas de vinhos. Diz uma colega nossa que um vinho ou é decente ou então precisa de medalhas para se afirmar. Admito que seja assim, não estou a ver o Petrus a ostentar no rótulo uma medalha de prata obtida no concurso de vinhos da Mairie de Pomerol...

Porém há clientes que de facto, e na dúvida, preferem uma garrafa que ostente uma rodinha dourada e há produtores que, podendo, aplicam medalhas em todos os seus vinhos.

Para evitar que começassem a aparecer medalhas a torto e a direito em todas as garrafas, a legislação cominitária começou por determinar que apenas alguns concursos idóneos poderiam atribuir medalhas aplicáveis no rótulo. Publicou-se a lista anual destes concursos.

Calculo que tenha havido um burburinho tal em Bruxelas, que a UE revogou esta legislação. Hoje a legislação comunitária permite que qualquer vinho aplique uma medalha obtida num concurso de amigos feito no sábado ao fim da tarde.

É justo dizer que a legislação nacional ainda obriga a requisitos mas aqui levantam-se dois problemas:

- por um lado, muito portuguêsmente, o índice de cumprimento é baixíssimo. Basta uma rápida olhada pelo limear de um supermercado para se perceber que há medalhas de todas as origens. Há concursos, há revistas, há provas que são feitas com o rótulo à vista e há até medalhas que aparecem nos rótulos mas não tem nada a ver com o produto que está na garrafa mas sim com a actividade genérica da empresa produtora;

- por outro, é justo dizer que a legislação também não é feliz. Permite que se crie uma imensidão de concursos de vinhos em Portugal mas impede a colocação de uma medalha de um vinho premiado pela Revista de Vinhos ou pontuado pelo Wine Advocate.

Muito à nossa maneira ( andamos nisto há 850 anos ), resolveu-se o assunto de forma simples: a lei estabelece tudo o que entende, mas não é cumprida. É uma coisa muito típica nossa: dá-se voz aos que exigem legislação rigorosa publicando tudo o que pedem e dá-se liberdade aos que exigem não haver regras pelo método de não aplicar a lei. Nem discuto, pois é um método de sucesso, fica toda a gente feliz.

Claramente se fossemos uma terra de bom senso, o assunto tinha uma de duas soluções:
  • ou o sector quer estas regras e então o Estado faria com que elas fossem cumpridas;
  • ou o sector quer outras regras e então mudava-se a lei e o Estado faria com que a nova lei fosse cumprida.
Como não somos, estamos nisto...

Nota: o uso de "light" nos rótulos ( hoje proibido ) fica para próximo texto. Vou ali e já venho.






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