quarta-feira, 22 de junho de 2016

Fundos comunitários: tocar ao ritmo


Quem prepara candidaturas a fundos comunitários já tem como certo que o conteúdo de uma candidatura é o equilíbrio, tão elegante quanto possível, entre aqueles investimentos que o candidato pretende fazer e para os quais procura apoio, e a resposta positiva que se deve dar a alguns requisitos mais ou menos irrelevantes, não porque estes sejam importantes ao investimento, mas apenas porque o cumprimento destes ajuda à aprovação da candidatura.

Não raras vezes os regulamentos cedem à tentação de ser demasiado programáticos. Abrem candidaturas para projectos com um determinado fim mas depois vai-se ao pormenor de indicar como deve ser feto, com quem, quando, enfim, inúmeros detalhes. Isto é transversal em projectos de várias áreas. Não duvido que a intenção do legislador seja boa, mas o resultado inevitavelmente é mau.

Vem isto a propósito de uma nova vaga de apoios para a promoção que tem como exigência da Comissão Europeia que haja a integração de novos mercados a cada candidatura, sendo que um mercado exportador não pode receber investimento por período superior a três anos. Sublinhe-se que é uma exigência da UE, não do nosso Estado.

A intenção da Comissão compreende-se: pretende que haja um alargamento dos mercados de exportação. Respeito-a. Porém é tecnicamente errada e por isso levará à má aplicação dos investimentos.

O investimento num mercado externo é algo de estratégico, de profundo. Tem se ser bem preparado, tem de ser bem municiado e demora tempo. A ideia de que em três anos se consegue um importador, distribuição e fazer marca é absolutamente ilusória, é um erro técnico. Não se consegue.

Se isto é verdade para um pequeno mercado, é infinitamente mais evidente em mercados gigantes como um Brasil, os Estados Unidos ou o Canadá. Qualquer destes países é um continente, não um país, onde cada estado ( províncias no caso do Canadá ) tem regras próprias e em muitos casos importadores próprios. Não faz sentido nenhum um produtor começar a investir nos EUA e, ao fim de três anos, deixar de o fazer ou deixar de ter apoios e reduzir brutalmente o seu investimento. É desperdiçar meios.

Do mesmo modo não faz sentido andar a cada ano a lançar um novo mercado. É uma ingenuidade. A abertura de um mercado é uma decisão estrutural, tem de ser ponderada, o mercado tem de ser estudado e, uma vez decidido, agora inevitavelmente voltamos ao ponto anterior, é preciso ser coerente e resiliente até aparecerem os resultados..

São os processos de trabalho árduo e metódico que abrem mercados, não os tiros para o ar.

Gostava que a Comissão Europeia fosse mais aberta aos contributos dos sectores. Porém nem sempre assim acontece. Sendo assim faremos como os músicos: tocaremos ao ritmo que nos obrigarem. Nós e milhares de investidores pela Europa fora.

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