quinta-feira, 22 de junho de 2017

O fim da Vinexpo ?

Gillaume Déglise, director da Vinexpo. Foto: Marion Sepeau Ivaldi.


Não fui à Vinexpo em Bordéus, aliás já lá não vou há alguns anos. Este ano estive quase para ir, aliás em amável articulação com a Viniportugal mas não foi possível porque, sinceramente, me apareceram compromissos em cima da hora.

O problema da Vinexpo é precisamente esse. Nenhum compromisso seria mais importante do que ir à Prowein. Já quanto à Vinexpo...

Quando vim para a CVRVV ( eu sei, foi no tempo dos dinossauros ), ir à Vinexpo era obrigatório. Tínhamos lá uma grande presenças de empresas. A CVRVV na altura fazia a Vinexpo, a Vinitaly, Londres e a Vinordic. A Vinexpo era, ao tempo - A feira - e era, além disso, uma tradição com a longa viagem de carro pontuada por uma paragem em Espanha para uma refeição deliciosa de cordero com tempranillo. Bordéus estava sempre cheia como um ovo, tudo caríssimo e um calor a que ninguém ficava alheio.

Leio no site da Vitisphére que Guillaume Déglise, o director geral da Vinexpo anunciou que a organização do evento está a ponderar mudar de data. Faz bem. É claro que é um pouco tolo anunciar que está a pensar. Ou muda e anuncia um novo impulso ou então mantém tudo na mesma, Mas ok, pensar já é um passo...

A data é um problema sim. Estava lá em 2003, ano de um calor tremendo em que o ar condicionado não funcionou, os transportes eram uma miséria. O pavilhão do "novo mundo" estava impraticável com o calor e os Australianos anunciaram que não mais lá iriam. O Senhor Déglise aponta a questão do clima e os transportes, outro problema central.

Tenho porém imensas dúvidas que Bordéus vá a tempo. Ontem em conversa com colegas do sector e com o Presidente da Viniportugal, concluímos que a presença Portuguesa na Vinexpo é de cerca de 1/4 da que temos na Prowein. E continuam a chover pedidos de mais empresas interessadas na Prowein.

Tenho porém imensas dúvidas que Bordéus vá a tempo para recuperar a posição de relevância que em tempos teve e perdeu. Tal como a Vinitaly aliás

A luta entre os dois eventos, de Bordéus e Düsseldorf, é muito curiosa pelo que demonstra das duas culturas em causa. Tenho imenso carinho pelos Franceses e visito aquele país sempre com satisfação, mas visitar Bordéus e a Vinexpo é uma banho na cultura "Franco-française" que marca tanta coisa naquele país. Gastaram 81M€ na Cité du Vin, na Vinexpo há "services Vip" de tudo e mais alguma coisa, tudo é apresentado de forma impecável mas depois falta o básico. A infraestrutura dos pavilhões, a cidade, os transportes.

A Prowein em Düsseldorf é o oposto. Até hoje não sabia quem era o organizador da Vinexpo. Vi-o na foto que está em cima. Com o responsável da Prowein, já reuni diversas vezes. Com ele e com o responsável do centro de exposições, a Messe Düsseldorf. São pessoas normais, de trabalho, com as quais se resolvem questões olhos nos olhos. O metro de Düsseldorf não é bonito ( e a porcaria das portas travam quando vai cheio... ) mas leva os visitantes e clientes directamente de toda a cidade até dentro do pavilhão. Quem dera a Düsseldorf ter um tram tão bonito como o de Bordéus. Quem dera a Bordéus ( ou ao Porto e a Lisboa já agora ) ter um metro que levasse os visitantes até dentro do pavilhão de exposições. Os Chateaux Franceses são lindos sim, mas Düsseldorf tem um aeroporto próximo com ligações directas a todo o mundo. E depois a Alemanha é um fabuloso importador de vinhos e é uma placa giratória para os países vizinhos.

Demorou imenso tempo até que a Prowein se assumisse como a maior feira europeia. Há nisto muita inércia porque um comprador é incentivado a ir a uma feira, não por ter lá alguns bons produtores ( se fosse para isso visitava-os ) mas sim por saber que em dois dias de trabalho pode marcar ali uma infinidade de reuniões. O mesmo se passa com o produtor: vai à feira, não para encontrar um importador, mas porque sabe que a feira é um ponto de encontro cheio de clientes. A inércia que fez demorar esta liderança é a mesma que a defenderá. Tenho para mim que Bordéus só sobreviverá se mudar tudo e, mesmo assim, terá de lutar muito. A presença massiva de expositores Franceses a cada ano na Prowein é a melhor demonstração da liderança desta.

Para saber mais, leia o artigo da Vitisphére aqui.


Nota: dizem-me que o Tram já vai até ao pavilhão da Vinexpo. Este ano não: avariou por causa do calor que faz todos os anos naquela cidade.

Nota II: não é assunto deste Blog, mas ter construído o metro do Porto há meia dúzia de anos sem uma ligação directa da cidade à Exponor e desta ao aeroporto foi um golpe de génio...

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