sábado, 1 de dezembro de 2018

A propósito do Rodolfo

Foto: FB RBQ

Rodolfo Baldaia de Queirós acaba de ser eleito para presidir à região vitivinícola da Beira Interior. Conheço o Rodolfo e o seu trabalho - sou parcial já sei - mas não hesito em afirmar que dificilmente se poderia ter feito melhor escolha. O Rodolfo tem um profundo conhecimento da Região que abraçou na vida pessoal e profissional, é um profissional sólido e dedicado e tem a necessária imparcialidade para dirigir o processo de certificação com credibilidade. Sucede aliás a um presidente admirável, João Carvalho ( Quinta dos Termos ), com visão e sentido de serviço e a quem a região muito deve. Porém a região tem de crescer e ganha agora velocidade. A Beira Interior é uma região com vinhos interessantíssimos mas com um reconhecimento do mercado que tem ainda imenso para se afirmar.

Quando entrei para este mundo das regiões demarcadas, nos anos 90, a maior parte das CVR's era dirigida por quadros do Ministério da Agricultura ou profissionais de proximidade ao poder político. Isto não é uma crítica ao seu trabalho, pois todos eles deram o seu melhor e vários foram grandes presidentes. Apenas refiro a origem das nomeações. Gente como Tomás Correia, Virgílio Dantas, Carvalho Ghira, Marcílio Gomes dos Santos, Clara Roque do Vale, Monteiro Simões foram essenciais para que as regiões dessem os primeiros passos, muitas delas em instalações do IVV.

Eram raras as excepções, uma delas a CVRVV. Eu fui "nomeado" ( na altura era assim ) representante do Estado pelo então Secretário de Estado Luís Medeiros Vieira ( sim, é o mesmo hoje ) no âmbito de um acordo celebrado entre as cooperativas e o comércio da Região que garantiu três presidências, as do Engº Gaspar Castro Pacheco, Dr José Emílio Pedreira Moreira e a minha. Independentemente das simpatias políticas de cada um, o que se passou é que a Região garantiu alguma autonomia na proposta de um nome que o governo da altura aceitaria.

Acabados os representantes do Estado em 2004 as regiões foram oscilando, primeiro no modelo de eleger produtores de referência, evoluindo recentemente, para a eleição de gestores profissionais, O Alentejo levou esta orientação mais longe: já fez duas escolhas por um processo de recrutamento típico do sector privado e o nome final foi votado em Conselho Geral.

Esta é, claramente, a tendência que se reforça a cada dia. Bem vistas as coisas, hoje mais de metade das CVR's são geridas por profissionais que não estão ligados a empresas e que respondem por objectivos de gestão. Incluo a CVR Dão que, apesar de ter uma Comissão Executiva de empresários, passou a ter um director geral profissional com poderes significativos.

Há uns tempos, escrevia por aí um produtor que os presidentes de CVR's deveriam ser pessoas que saibam podar. Talvez. A mim nunca me pediram que podasse, o que faria com gosto. O que me parece essencial em quem dirige uma entidade que faz certificação, promoção e fomento é que saiba fazer isto mesmo. Que tenha uma visão estratégica da região, que se relacione com quem pode apoiar a região, que facilite o debate interprofissipnal que perceba o contexto da UE que esteja atento aos problemas fiscais, ao dossier álcool, à evolução da técnica e que escute os mercados e os produtores. Diria que isso é mais urgente do que podar. Por último, as normas de certificação a que as CVR's se submetem são hoje taxativas: se o presidente de uma CVR for ele mesmo um produtor, está legalmente impedido de dirigir o  processo de certificação. Assunto pois esclarecido.

O Rodolfo corresponde exactamente ao perfil de um quadro muito bem formado e cuja objectividade de gestão está assegurada. Tem tudo para ter sucesso.

Curioso ou significativo é que, no ano em que entrei para o sector, o Presidente do IVDP ( à data IVP ) era um académico de prestígio da UTAD, Fermando Bianchi de Aguiar. Esta semana a nomeação do novo presidente do IVDP recaiu num colega com o mesmo perfil.

Algumas palavras, já que de memórias se trata, para recordar  nome de Gente Grande com quem tive o gosto de conviver e que não voltaremos a ver.

Armando Pimentel , que dirigiu o IVP em condições de saúde muito exigentes e com quem tive o gosto de, em Paris, fazer uma representação dos vinhos Portugueses junto dos colegas da UE.

Álvaro Marques de Figueiredo, histórico presidente da CVR Dão, líder de pulso que ia connosco a Lisboa reclamar com o então Ministro Arlindo Marques da Cunha, já não sei a que propósito. O Álvaro Figueiredo trazia sempre consigo um enorme molho de chaves ( deviam ser a de casa dele, calculo ) mas quando as discussões eram difíceis, punha-as em cima da mexa e exclamava "deixo já aqui as chaves da CVR". Geralmente corria bem. Nunca o vi regressar sem as chaves !

Virgílio Dantas, homem delicioso mas dotado de um feitio impossível, era natural da nossa região, de Lanhelas-Caminha, mas viveu sempre em Lisboa. Presidiu à CVR Cartaxo, que deu origem à hoje CVRTejo. Quadro do IVV ( e antes da Junta Nacional do Vinho ) era licenciado em Direito e Engenharia Agronómica. Foi absolutamente essencial no dossier vinho da adesão de Portugal à UE. Era meticuloso ao limite, o que levava à exasperação dos colegas. Um bem disposto porém. Tenho boa memória dele.

Tomás Correia. Convivi pouco com ele. Julgo que presidiu à então CVR Alenquer, Arruda e Torres, mesmo numa altura em que eu me iniciava na ANDOVI.

Marcílio Gomes dos Santos era assessor do Secretário de Estado da Agricultura e Presidente da CVR Península de Setúbal. Convivi pouco com ele porque a CVRPS não era membro da ANDOVI. Lembro um homem muito sereno, conhecedor dos dossiers.

Nelson Heitor, também presidente da CVRPS e por muitos recordado como o homem do PROAGRI, um programa essencial de apoio aos agricultores nos anos 90. Casado com uma Monçanense ( se a memória não me falha ) era apreciador de Verde tinto !

O Rodolfo, que motivou este artigo, não conviveu com nenhum destes Homens. É de um novo tempo e ainda bem.

Preparem-se, os vinhos da Beira Interior vão dar que falar !

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